









Nota: as fotos desta página ilustram o antigo Jardim Municipal antes
das obras de requalificação de que foi alvo em 2005. |
Jardim Municipal: um local intemporal de convívio e descanso
“O Jardim é uma verdadeira maravilha. O seu arranjo é primoroso.
A sua disposição acertadíssima. A sua limpeza impecável. Há
corrimãos de roseiras que olorescem o ar fino. Canteiros de flores
cada um de sua especialidade, de sua cor, de sua natureza. Áleas
vastas, cobertas de areia amarelenta. Esguias, nobres, clássicas
araucárias. Cedros evocando apartados tempos do claro Lácio. Velhos,
graves, copados e redondos pinheiros mansos. Sombras doces e macias.
E do lado do rio, a meio dum lago onde rebanhos de peixes vermelhos
passam lestos – com gáudio da petizada garrida para que o lindo
jardim é ponto preferido – um encantador coreto em bambus, com seu
tecto típico de pavilhão chinês, enredado de lindas trepadeiras em
flor”.
Foi assim que, em 1926, o quinzenário Europa descreveu o Jardim
Municipal Infante D. Henrique. Inaugurado em 1891, o passar dos anos
obrigou a certas alterações. Mas nada adulterou a beleza deste
parque, que ainda hoje encerra grande voluptuosidade. A sua
inauguração foi um pouco polémica.
Segundo relatos de jornais do século XIX, o jardim era ainda de
terra batida, e tinha somente alguns bancos a rodeá-lo. Mesmo assim,
a cerimónia de inauguração contou com a actuação da Filarmónica
Figueirense. Corria o ano de 1910, quando António Rei, funcionário
público do município, se predispôs a classificar as plantas raras do
Jardim Municipal, ficando as despesas ao encargo da Associação de
Instrução Popular. Um serviço de utilidade pública, que permitiu
evidenciar a flora existente neste espaço.
Os tempos iam passando e, no ano de 1945 algumas modificações
foram inseridas com o intuito de modernizar e embelezar o jardim,
entre as quais um ringue de patinagem e um carroussel para crianças.
O facto é que ano seguinte, estas infra-estruturas foram retiradas.
No que toca ao ringue, a razão recaiu para o facto de não se ter
enquadrado no espaço que caracteriza o parque, já o carroussel fora
retirado por motivos de saúde, nomeadamente pelos riscos que
representava para as crianças. O Jardim Infante D. Henrique, como
também era conhecido, foi sempre alvo de peripécias, de
transformações, mas era, e ainda é, palco de animação e de diversão.
Em Julho do ano passado, o espaço reabriu ao
público, depois de seis meses de obras de requalificação que
mudaram o rosto do centenário jardim. Inauguradas pelo presidente da
Câmara Municipal da Figueira da Foz, Duarte Silva, as obras visaram
melhorar o espaço, mas também modernizá-lo.
Assim, se alguém proveniente de gerações passadas pudesse visitar
o espaço nos tempos que correm, certamente seria surpreendido pelas
transformações: sem lago e com o ‘coreto’ substituído por um palco
raso coberto por uma tela branca inclinada, o espaço verde domina
quase por inteiro o local, pontuado aqui e ali por bancos, colorido
pelo novo parque infantil, e animado pela enorme gaiola onde se
encontram algumas espécies de pássaros.
Alguns quiosques e pontos de venda de gelados, bem como as
instalações sanitárias, completam o espaço. Alterações que não
receberam o total agrado de muitos que preferiam o antigo jardim.
Mudanças à parte, o ambiente vivido nos dias de hoje assemelha-se ao
de antigamente, com crianças a correr e a brincar, avós e netos a
alimentar pombos com milho ou pão, casais de namorados em intervalos
românticos e pessoas, conhecidas ou não, a entabular conversas nos
bancos do jardim. Continua a ser o jardim da cidade, agora mais
aberto e voltado para o rio.
Cristiano Coutinho / Rangel Costa - in
O Figueirense - 2006/07/28
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