Companhia do Coliseu
Figueirense, SA.

Alto do Viso
Largo do Coliseu
3080 Figueira da Foz

Telefone: (+351) 233 427 606

Coliseu Figueirense

Uma praça com mais de cem anos

Longos corredores que conduzem à sombra ou ao sol, à bancada ou à galeria, recantos onde animais e homens confraternizaram antes do duelo, por vezes mortal. Paredes caiadas pelos sons da banda, e decoradas com placas que homenageiam os homens que, ao longo dos tempos, foram a alma do Coliseu Figueirense.

Vem de longe a tradição tauromáquica na Figueira da Foz. A Rua de O Figueirense foi, até há não muitos anos, a Rua dos Curros. Lá, com "carros de bois, carroças, tábuas e tranqueiras", se fizeram as primeiras corridas de touros.

O interesse da população pela festa brava levou a Santa Casa da Misericórdia a construir, em 1850, uma praça de touros frente ao Convento de Santo António, num local que durante muito tempo foi conhecido como o Largo do Touril. Mas as condições estavam ainda longe das ideais, e um homem assumiu como sua a missão de alterar esse cenário, dotando a cidade com um recinto à altura da aficcíon figueirense.

João Antunes Pereira das Neves, médico e aficionado, uniu esforços com Aníbal Augusto de Melo e, em 23 de Março de 1895, ficou decidida a criação da Companhia do Coliseu Figueirense, uma sociedade por acções com um capital social de 10 mil réis. A obra seria feita num terreno de João das Neves, que o cedia por 30 anos, em troca de 25 por cento dos lucros líquidos e um camarote.

A construção do coliseu não podia ter chegado em melhor altura. Cerca de 500 figueirenses conseguiram trabalho, um bem raro naquele tempo. A cidade fervilhava de entusiasmo, na expectativa de um novo espaço de lazer que representava, ao mesmo tempo, um potencial de crescimento económico numa cidade castigada pela recessão.

Tanta era a ansiedade que a obra se fez em tempo recorde. Em apenas cinco meses a primeira praça de touros que, na Figueira, honrava essa designação, estava pronta a ser inaugurada. A primeira corrida foi marcada para 25 de Agosto, corria ainda o ano de 1895. Mais de 6 mil pessoas fizeram questão de assistir à exibição de Alfredo Tinoco da Silva, um reputado cavaleiro a quem coube a honra de encabeçar o primeiro de muitos cartazes da festa brava naquele espaço.

O semblante da Figueira mudou a partir desse 25 de Agosto. As tardes de tourada traziam à cidade aficionados de todos os cantos do país, e também muitos espanhóis. Relatos da época afirmam que as ruas da Figueira se transfiguravam quando havia corrida, enchendo-se de senhoras bem vestidas e cavalheiros de flor na lapela.

Ao longo dos anos, nomes como Ribeiro Telles, Fernando Salgueiro, Manuel dos Santos, Manuel Conde e Nuno Salvação Barreto escutaram os passodobles toreros, tocados pela "Figueirense" e "Dez D'Agosto", que desde a primeira corrida abrilhantam o espectáculo.

A pé ou a cavalo, viveram-se tardes e noites de grande aficcion no redondel da Figueira da Foz. Para muitos a festa brava faz parte da cultura portuguesa, para outros, porém, " a tauromaquia é a terrível e venal arte de torturar e matar animais em público".

Tourada - um mundo de pequenos rituais

Com José Pereira da Costa e Vitor Falcão Pais, Miguel Amaral é um dos administradores da sociedade que gere o Coliseu Figueirense.

Miguel Amaral cresceu entre aficionados e tem a paixão da festa brava. É um dos cerca de 50 accionistas da empresa, constituída maioritariamente por figueirenses.

Nostálgico de um passado em que o espírito tauromáquico era vivido com "outra intensidade", Miguel Amaral recorda os tempos em que as pessoas trajavam a rigor para assistir ao espectáculo. "Os touros vinham pelos campos do Mondego, com os respectivos campinos, e só junto à entrada da estação de comboios é que eram colocados caixas próprias para o efeito. Juntavam-se então os cavaleiros, os peões de brega, a banda e o público em festa, atrás. Era um cortejo imponente."

Aquando do centenário, em 1995, o Coliseu Figueirense recriou o cortejo, cuja tradição se perdeu logo após o 25 de Abril de 1974. Depois, já no redondel, o ambiente era de festa. As bancadas, de pedra, não se adequavam aos corpos sensíveis das damas, nem aos imaculados trajes dos cavalheiros.

Surgiu assim um negócio paralelo: o do aluguer de almofadas. Por um preço simbólico, o público usufruía assim de um conforto extra. Mas as almofadas acabariam por ser incorporadas de forma mais directa no espectáculo, substituindo frequentemente as tradicionais flores que se lançam quando a prestação de um toureiro é particularmente bem sucedida. O negócio chegou mesmo a ser entregue à exploração pela Santa Casa da Misericórdia, um dos accionistas.

A tourada faz-se, aliás, de pequenos rituais como este. António Miguel Amaral realça o aspecto musical, com que se dirigem os trabalhos durante o espectáculo. O director da corrida dá, através do corneteiro, as diferentes instruções: entrada de forcado, saída de cavaleiro, direito a mais uma bandarilha… Nos primeiros ferros, por exemplo, a banda não toca, porque os acordes inaugurais estão guardados para o primeiro bom desempenho do cavaleiro.

Os sons são, assim, um elemento activo nas touradas. Mas nem sempre há música. "Por vezes o silêncio é tanto que, das bancadas, ouve-se o que o toureiro diz ao touro, ouve-se o respirar da arena".

Porque emoção não falta, ou não fosse este, para os aficionados, o espaço da demonstração suprema de bravura.

Jorge Lé e Andreia Gouveia - in O Figueirense


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