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Património Geológico do Cabo Mondego
No sector ocidental da Serra da Boa Viagem (Cabo Mondego) aflora
uma espessa série de sedimentos, que registam, de forma notável,
alguns dos principais acontecimentos da História da Terra. O
intervalo de tempo registado situa-se aproximadamente entre os 180 e
os 140 milhares de anos, isto é, refere-se ao Jurássico Médio e
Superior.
Para o intervalo de tempo considerado, os marcadores
estratigráficos normalmente utilizados em sedimentos marinhos são as
amonites, um grupo extinto de moluscos cefalópodes, que se
assemelhavam às actuais lulas e chocos. A ocorrência destes fósseis
no Jurássico Médio do Cabo Mondego (flanco norte da Serra da Boa
Viagem) é particularmente relevante, na medida em que, com base na
sua distribuição vertical, se conseguem precisar as escalas do tempo
geológico.
Os locais com registo sedimentar expressivo e com conteúdo
elevado em amonites são locais com grande interesse para as Ciências
da Terra, dado que testemunham com rigor um determinado intervalo de
tempo da História da Terra. O Jurássico Médio do Cabo Mondego
apresenta essa particularidade, sendo há muito considerado como
referência, a nível internacional, nas discussões da especialidade.
O Jurássico Superior, cujos sedimentos assentam sobre o Jurássico
Médio (sector sul da Serra da Boa Viagem), proporciona a observação
de corpos sedimentares característicos de ambientes de transição
(recitais, lacustres, deltaicos).
O registo sedimentar inclui uma grande variedade de estruturas
sedimentares bem definidas, acompanhadas de associações
diversificadas de fósseis típicos de diferentes ambientes (corais,
equinodermes, bivalves, braquiópodes, gasterópodes, crinóides,
restos vegetais). É justamente nesta posição estratigráfica (Oxfordiano)
que, em 1884, foram reconhecidas várias pegadas de dinossaurios
teropodes, atribuídas a megalosaurideos.
A História Geológica do nosso país durante os tempos jurássicos
está inscrita nas falésias do Cabo Mondego. Preserve-a porque ela não se repete.
Helena Vaz Henriques -
in A Voz da Figueira - 2001/06/21
Geóloga apresenta proposta à UNESCO: Cabo Mondego poderá ter
estatuto próprio
A proposta de criação de um estatuto orgânico próprio pela UNESCO
para o Cabo Mondego, na Figueira da Foz, foi apresentada pela
geóloga Helena Henriques, do departamento de Ciências da Terra da
Universidade de Coimbra, durante o "IV Simpósio Internacional ProGEO
de Conservação do Património Geológico", que terminou domingo em
Braga.
A riqueza científica do Cabo Mondego continua em risco de se
perder para sempre. Os geólogos nacionais e internacionais sabem-no.
Agora, e numa "quase derradeira" investida, Helena Henriques afirmou
que um estatuto próprio para aquele património forneceria
ferramentas claras para "travar" a degradação a que aquele
património está exposto. A proposta é fundamentada nas inegáveis
séries sedimentares do Jurássico Médio e Superior existentes no
local. "A criação desse estatuto seria uma arma poderosíssima para
definitivamente preservar o património em causa" explicou, ao
Correio da Figueira, Helena Henriques, no final de uma excursão
científica ao Cabo Mondego.
Na opinião da geóloga, a História Geológica durante os tempos
jurássicos "está inscrita nas falésias do Cabo Mondego". O intervalo
de tempo registado situa-se aproximadamente entre os 180 e os 140
milhares de anos, isto é, refere-se ao Jurássico Médio e Superior.
"O Jurássico do Cabo Mondego é o melhor do Mundo", referiu Helena
Henriques.
A sugestão da criação de um estatuto próprio para o local foi bem
aceite pela comunidade científica presente no simpósio. "É
absolutamente necessário proteger este património e penso que a
UNESCO não está a dar o devido valor a este local" disse, ao Correio
da Figueira, Kevin Page, da Universidade de Plymouth, Inglaterra. "É
um ponto de referência para toda a comunidade científica",
acrescentou Guillermo Melendez, da Universidade de Saragoça,
Espanha.
Desleixo das autoridades
A Liga para a Protecção da Natureza (LPN) lamentou o "desleixo"
das autoridades governamentais competentes. "A situação do Cabo
Mondego não é difícil de resolver mas, infelizmente, no país as
questões ligadas ao ambiente são relegadas para segundo plano, não
tendo o merecido tratamento político", protestou Miguel Ramalho.
A autarquia local tem tentado parar a exploração naquela zona do
Cabo Mondego. Em Julho, o presidente da câmara municipal, Duarte
Silva admitiu a possibilidade de enviar uma queixa a Bruxelas contra
o Estado português, por este através do Instituto de Conservação da
Natureza (ICN), permitir a destruição do património natural do Cabo
Mondego, na Figueira da Foz.
O Cabo Mondego tem sido objecto de diversos estudos por
investigadores nacionais e estrangeiros que encontram no local
formações rochosas de diferentes épocas do Jurássico médio e pegadas
de dinossauro. A Cimpor, proprietária do espaço, detêm licença de
exploração das pedreiras até 2010. Se as extracções não pararem
antes dessa data, dizem os geólogos, "toda a riqueza natural se
perderá".
Paulo Dâmaso -
in Correio da Figueira - 2005/09/23
Cabo Mondego é Monumento Natural - Jurássico à vista
No Conselho de Ministros do passado dia 6 foi aprovado o decreto
regulamentar que classifica o Cabo Mondego como Monumento Natural,
indo ao encontro de um desejo antigo de muitos figueirenses. A
criação de um parque geo-natural é o próximo sonho a concretizar, e
Duarte Silva acredita que a Cimpor irá colaborar.
O Decreto Regulamentar que cria o Monumento Natural do Cabo
Mondego “visa a protecção de uma área de ocorrência natural de
afloramentos jurássicos do Cabo Mondego, detentora de inequívoca
relevância nacional e supranacional”, entendeu o Conselho de
Ministros. Assim, a classificação do Cabo Mondego como Monumento
Natural tem como objectivos “A conservação do estratotipo de limite
do Aaleniano-Bajociano e da série sedimentar encaixante, que
representa o registo estratigráfico do Jurássico médio e superior,
das jazidas de fósseis e icnofósseis e das estruturas sedimentares;
a manutenção da sua integridade; a investigação científica sobre os
fenómenos geo-históricos materializados no registo estratigráfico
acima referido e a sua divulgação numa perspectiva de educação
ambiental”. São, ainda, definidos os actos e actividades interditos
e condicionados dentro dos limites do Monumento Natural, e a
responsabilidade do Instituto da Conservação da Natureza e da
Biodiversidade na administração directa desta área protegida de
âmbito nacional.
Confiança na Cimpor
O presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Duarte
Silva, acolheu a notícia “com muita satisfação”, embora lamente “os
10 anos que passaram desde que começámos esta luta”. A expectativa
do edil, “mais do que isso, a esperança”, vai agora para “um
processo que está a ser conduzido pela Região de Turismo do Centro,
para a criação de um geo-parque natural, à semelhança do que existe,
por exemplo, na zona de Castelo Branco”. Duarte Silva acredita que
esta classificação “dará um forte impulso ao turismo de arqueologia
e conhecimento, porque é realmente uma oferta diferenciadora: há
poucos locais no mundo em que o período jurássico esteja assim, tão
à vista e tão bem representado”. O edil acredita que a Cimpor, “uma
empresa que tem mostrado preocupações com a preservação ambiental em
diferentes locais, irá também colaborar nesse sentido no Cabo
Mondego, nomeadamente para a concretização do projecto do parque
geo-natural”.
in O Figueirense - 2007/06/15
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