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Palácio Sotto Mayor
Sala de fumo ou de café: Tecto em volumes, restaurado como as
paredes. Candelabro bronze e cristal, como a maioria dos restantes.
Ao centro, mesa de jogo, com espelho sobre o pano verde. Em cima
dela, notável fantasmagórica marinha: porcelana oriental. Quatro
cadeiras de encosto e braços; couro claro, segundo a tradição
lavrado por Othão Luís.
Sala de mesa: Tecto geométrico, de volumes. Grande lustre de dez
braços, arte nova: corolas, pinha chamejante, bolbo.
Paredes forradas como as do escritório. Rico fogão de sala, com
espelho. Sobre a cornija, notável conjunto de três peças de
porcelana francesa. Mobiliário rico, estilo misto de renascença e
orientalismo indiano. Vinte e uma cadeiras de espaldar, com assento
e encosto em veludo flordelizado, azul.
Sobre os dois guarda-louças baixos, par de jarrões de porcelana
oriental.
Sala de jogos: Tecto geométrico, em volumes, com decoração
alusiva a uma das funções que na quadra se praticava: a dos jogos de
cartas.
Notável lustre, bronze de três braços; em campânulas de seda
velha, os respectivos quebra-luzes. Ao centro um bilhar antigo. À
esquerda da entrada, pequena mesa de torcidos e tremidos.
Sala de música: Tecto alusivo, de António Ramalho (1911). Lustre
de braços em volutas, arte nova: corolas e pinhas chamejantes.
Nas paredes, de novo Joaquim Lopes, que na Figueira esteve pelo
menos em 1926: duas telas históricas – Vasco da Gama e Afonso de
Albuquerque, e uma representativa alegoria neo-impressionista,
Bacantes, um hino à pródiga Natureza.
Ao ângulo direito da parede da janela, mesa de torcidos e
tremidos. No ângulo oposto, sobre plinto semelhante ao do vestíbulo,
cabeça em bronze de David de Sousa, o mais célebre músico
figueirense, violoncelista, compositor e chefe de orquestra;
esculpiu-a mestre Gustavo Bastos, em 1984, ano do primeiro
centenário do Theatro-Circo Saraiva de Carvalho (actual Casino da
Figueira).
Mobiliário diverso, algum bom, romântico; cadeiras forradas a
seda adamascada carmesim. Ao centro, piano de cauda, Beckstein.
Sala de dança: Tecto alusivo, de António Ramalho (1911). Lustre
de vidrilhos, rematando em pinha. Fogão de sala, semelhante ao da
sala de visitas; remate por breve painel pintado, mas nem limpo nem
identificado. Sobre o entablamento, novo conjunto francês de
relógio, sem marca visível, e par de candelabros de mão.
Nas paredes, mais cinco notáveis interpretações de Dórdio Gomes,
sobre quadros do Louvre: Batalha de São Romdo, de Paolo Uccello; O
Homem da Luva e a Mulher ao Espelho, de Ticiano; Susana no Banho, de
Tintoreto; e Bodas de Caná, de Veroneso, numa ousada conversão da
cena bíblica fixada pelo italiano.
Rico conjunto de cadeiras estilo Dom José: assento em couro
lavrado, ostentando esquemático brasão, já antes apontado em bronze.
Corredor: É verde, tom que lhe imprimem quatro grossas colunas e
os pilares adossados às paredes, tudo massas imitando mármores
raiados, em tons de malaquite.
No tecto, além da riquíssima e exuberante decoração, três lustres
arte nova – corolas e vidrilhos.
Quatro amplas cadeiras de encosto e braços: assento e espaldar de
sola lavrada, tudo de sabor setecentista. Também, mas bem mais
recentes, dois bancos corridos, num certo jeito renascentista,
sobretudo dado pelos braços e espaldares rectos, os assentos e
encostos em couro lavrado. Ainda dois potes de chão, bronzes
orientais.
Escadaria nobre: Há nela três valores maiores a apreciar: o
corrimão, o vitral e o conjunto paredes e tecto.
Elegantes candeeiros de pé, bronzes de requintado lavor,
constituem-se em sentinelas extremas do corrimão, igualmente de
bronze e que segue o risco daquele outro que o arquitecto Sibien
concebeu para o luxuoso Hotel Majestic de Paris, em fins do século
XIX. O próprio lançamento do escadório e a sua iluminação seguem a
linha do modelo apontado.
O vitral iluminante de todo o espaço é obra de Bernard
Champigneulle, autor célebre de pelo menos um estudo sobre arte
nova, até já vertido em português e neste roteiro muito citado.
Herdeiro de Charles Champigneulle (1853-1905), pintor vidraceiro que
nos finais do século passado reformulara a técnica do vitral,
Bernard oferece-nos aqui um belo painel de exaltação da Natureza,
fecunda e generosa. Tem data de Paris, ano de 1926.
António Ramalho é o terceiro grande motivo a considerar no
recinto. No tecto, mais um breve apontamento da sua autoria. Dele
seria igualmente o conjunto de painéis murais das paredes em volta.
Preparadas as telas, principiada a obra a partir da parede
enquadrante do vitral, andava o pintor a braços com a grande
superfície à esquerda de quem sobe, quando o vitimou uma crise
cardíaca (30-IX-1916). O mecenas, homem de dinheiro mas também de
fina sensibilidade, decidiu que o trabalho ficasse inacabado, tal
qual está.
O terceiro piso, destinava-se ao repouso dos principais da
família e dos hóspedes mais ilustres, oferece aos olhos do visitante
uma decoração mais discreta, salvo a nível do corredor, onde morre a
nobre escadaria do palácio, vinda de baixo.
O quarto e quinto pisos eram, respectivamente, para os amigos da
família e visitas de menos cerimónia, bem como para a criadagem
feminina.
Fotos: Jorge Dias
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