Palácio Sotto Mayor

Joaquim Felisberto da Cunha Sotto Maior era transmontano natural da freguesia de São Nicolau de Lebução, concelho de Valpaços, onde nasceu a 11 de Março de 1845, e se baptizou; filho legítimo de José Lino da Cunha Sotto Maior, de Chaves, e de sua mulher, Ana Lúcia Garcez Palha, de Lisboa.

Casado com Madalena Mensa Sotto Maior, dela houve sete filhos que, por ordem decrescente de idades, foram: Ana, casada com o escultor Diogo de Macedo; Joaquim; Maria do Pilar, casada com Fernando Pinto Basto; Maria Madalena, casada com Eduardo Luís Pinto Basto; Alberto, Vasco e José).

Seu pai viu-se perseguido por sequazes de Dom Miguel; vitoriosa a causa liberal, foi-lhe dado ser chefe de alfândega em Barca de Alva. Mas faleceu novo, uns quatro anos após o nascimento do filho Joaquim, o qual, entre os doze e os treze anos emigrou para o Brasil, a tentar a sorte, como outros seus familiares.

E teve êxito: por exemplo, a Casa Sotto Maior, que ajudou a fundar, chegou a cotar-se como a mais importante do Rio de Janeiro, no comércio de fazendas por atacado.

Os seus bens maiores enraizavam em terras da Vera Cruz: sócio comanditário da casa comercial Sotto Maior & Companhia; também com interesses na firma Costa, Pacheco & Companhia, do Rio; igualmente ligado a empresa Araújo Costa & Companhia, de São Paulo; accionista das indústrias de Fiação e Tecidos Aliança, de Fiação e Tecidos Corcovado, assim como de várias casas bancárias; proprietário de meia dúzia de prédios, no Rio; possuidor de muitos títulos da divida pública; senhor de dinheiros em contas-correntes, etc..

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Com pouco mais de quarenta anos regressado a Portugal, depois de por algum tempo viver no Porto, acaba por fixar-se em Lisboa, na Calçada da Estrela, gozando de seus bens, embora sem de todo virar costas ao negócio.

Um dia, diz-se que a convite de alguém, por igual emigrante enriquecido, de apelido Santos, visitou a Figueira. E logo se enamorou da jovem cidadezinha e sua praia, que passou a frequentar com a família.

Em tal opção, de resto, Sotto Maior não só mostrava ser pessoa de bom gosto, como seguia também a corrente dominante. Quase vinte anos antes, já Ramalho Ortigão honradamente confessara: "Não tem outro remédio se não vir à Figueira quem quiser ver a mais linda praia de banhos de Portugal".

E, anos depois, repetia ainda que "nenhuma outra praia em Portugal possui as condições desta para tornar agradável a estação de banhos". Ora essa aura manteve-se ainda nas primeiras décadas do século XX.

A breve trecho, tratou Sotto Maior de instalação sua própria. A Gazeta da Figueira de 25-VIII-1900 noticiava que o "abastado capitalista de Lisboa adquiriu, no Bairro Novo, um terreno de Área superior a vinte mil metros quadrados", onde projectava "levantar um grande e sumptuoso prédio que os práticos não avaliam em menos de doze a vinte contos".

Desde aí se acrescentou o espaço e se ergueu o palacete em que o poderoso senhor viveu longas temporadas e onde passou bons e maus momentos. Destes, o mais escuro terá sido o da morte da esposa, a 24-III-1922; ele próprio aí se finou aos oitenta e sete anos, a 23-IV-1933.

Grandes benefícios colheu a Figueira do entusiasmo com que se lhe deu Joaquim Sotto Maior.

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Apoia e ajuda outras instituições: as Filarmónicas da terra, a Associação Naval 1.° de Maio, o Grupo de Instrução e Sport da Praia de Buarcos, o Grupo Caras Direitas, de Buarcos também, a Sociedade de Instrução Tavaredense. Apoia e ajuda o jardim-escola João de Deus, a Associação de Instrução Popular, a delegação figueirense da Universidade Livre, etc.

Para lá de organizações colectivas, foi Joaquim Sotto Maior muito sensível às pessoas. E a maneira como tratou os operários que lhe ergueram a residência, aos quais pagava pontualmente, ou como tratou cada um dos seus serviçais, provam o sentido humanitário que sempre revelou.

Lembrem-se aqui mestre Francisco Tirano, chefe das oficinas de canteiro, ou mestre Augusto Moreira, oficial dos carpinteiros e depois encarregado geral do final das obras; o cocheiro José António Fernandes ou o empregado Carlos da Costa Guia.

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Por morte de Joaquim Sotto Maior e por força testamentária, passou a vasta e rica propriedade para sua filha, Maria Madalena da Cunha Sotto Maior Pinto Basto.

Mas a breve trecho o palácio entrou a decair: bem outros eram o centro, o poder e o conceito de vida das pessoas que o receberam.

Posto à venda pelos herdeiros, acabou tudo por ser adquirido em 1967 pela Sociedade Figueira-Praia, à qual hoje pertence, principalmente graças a sugestões de Francisco de Freitas Lopes, ao tempo um dos administradores daquela empresa.

Depois de nele haver mandado fazer os reparos mais urgentes e uma profunda transformação do piso inferior; depois de, nos dois pisos imediatos, ter mandado executar algumas obras de restauro e profunda arrumação: aquela Sociedade desde 1980 abriu ao público o importante imóvel, convertido em museu.

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Texto (desta página): excerto (capítulo inicial) do livro "Palácio Sotto Maior" da autoria de José Pires Lopes de Azevedo editado em Setembro de 1999 e com distribuição gratuita pela Sociedade Figueira Praia, Sa.

Fotos: Jorge Dias


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