Museu do Sal
Relato na primeira pessoa
Não sei quando ouvi falar do salgado pela primeira vez! Mas
quando lá pus os pés tinha 12 anos. Enfim, conhecia a Morraceira! E
todos os caminhos de que tanto tinha ouvido falar.
A minha Mãe tinha "andado no barco", quer dizer carregar os
barcos de sal no inverno. Ela dizia: é um trabalho que nunca te
deixo fazer! Os meus pais diziam, com a quarta classe não precisava
de andar no torrão ou no sal!
Eu comecei pelo torrão. Era-mos várias raparigas que
trabalhava-mos 8 horas por dia com uma gamela de terra à cabeça, a
mudar a terra para fazer ou reparar os talhos.
Comecei pela Ínsua. Ganhava 12 escudos por dia e sentia-me muito
feliz por ganhar tanto como uma mulher! Mas com 12 anos e com
colegas que pouco mais velhas eram, gostávamos de brincar e um dia,
no fim do almoço, (sem que fosse culpa minha) mandaram-me embora
para casa à 1 hora da tarde! Passa-mos o resto da tarde a apanhar
amêijoas e entrámos com uma gamela cheia!
O patrão veio pedir desculpa e queria que eu fosse de novo
trabalhar, mas a minha Mãe não me deixou... e passados dois dias fui
trabalhar para outro, ainda mais longe (em frente a Vila Verde);
levantava-me às 5 da manhã, trabalhava 4 horas e ganhava 15 escudos!
Nos anos seguintes continuei e foi assim que aos "15 anos comecei
a andar a correr com uma cesta de sal à cabeça". Entretanto aprendi
a costura e aos 14 anos tive as minhas primeiras clientes.
Mas o salgado estava-me no corpo! Comecei com duas "marinhas" e
depois quatro até aos 23 anos. Devido ao trabalho e aos compromissos
que tinha com as minhas clientes como costureira a dias (na
Figueira) e em casa, não pude continuar. Foi com tristeza que tive
que abandonar as marinhas, o que sempre me deixou muitas saudades.
Mas ser salineira é um trabalho muito duro; nos meus tempos o sal
era "tirado" com cestas e entre nós havia hábitos muito
tradicionais.
Nesses tempos andávamos de avental, e era ver quem fazia os laços
mais bem feitos! Uma cinta (que por vezes era uma gravata velha)
servia para levantar as saias, porque o sal "tirava-se" a correr e
de empreitada. Quanto mais e mais depressa se corria mais depressa
se terminava; mas eu tinha marinhas grandes, de 9 mulheres, e por
vezes chegávamos a levar 3 horas quando as réduras (montes de sal)
eram grandes.
Nessa altura havia grandes ralhos contra "os marronteiros" (era
assim que nós chamávamos os marnotos na época). Aconteceu mesmo que
um dia participei na primeira greve que foi feita no salgado! Éramos
7 mulheres e já há muito que andávamos a reclamar 8 e um dia a
rédura era muito grande e dissemos: ou ele nos pagava mais ou
deixávamos a rédura na cilha.
Como ele não esteve de acordo foi o que fizemos! Viemos embora,
ainda que que de ida e volta tínhamos que andar cerca de 3 horas!
Muitas vezes saímos à 1 hora da noite e entrava às seis da manhã
e ainda ia trabalhar na costura o dia inteiro!
Eram belos tempos apesar de tudo e para mim eram férias! Ainda
que trabalhasse por minha conta ficava sempre de férias em Agosto,
por um lado para aproveitar de ir tirar sal e por outro par ir para
a praia do Cabedelo ou da Costa o resto do dia.
Quando era possível, por vezes, tirava 2 ou 3 marinhas no mesmo
dia! Mas para isso era também motivo para "guerras" até que todas as
mulheres estivessem de acordo, sobretudo quando éramos muitas!
No fim do verão os pés ficavam gastos porque andávamos descalças
e havia quem tivesse que andar com meias para não "usar" tanto os
pés!
O sal, quando começa o Verão, é mais ligeiro, mas para o fim é
muito mais pesado, e por vezes se alguma andava mais cansada, as
outras iam "para cima dela" e era vergonhoso... queria dizer,
estarem muito perto umas das outras.
Isto provocava também que os marnotos tinham mais tempo para
"calcarem" as cestas com os punhos (pedaços de madeira em forma de
meia lua) e então eram também momentos de desafio! Pois que uma
salineira não devia negar uma cesta, à condição que ele fosse capaz
de a levantar e pô-la na nossa cabeça sem nós o ajudar-mos!
Outras vezes havia uma pequena vingança, era dar-lhe uma
salgadela! Quer dizer, dar um "jeitinho" para que o sal caia para o
lado dele!
Levantar uma cesta é um esforço que se dever fazer sincronizado,
senão um ou outro podia deixar cair o sal sobre o que faz menos
força. Nos meus tempos pegava-se na cesta cada um do seu lado, a
salineira dava meia volta e quando a cesta pousava na cabeça, ela já
esta voltada para partir direito à casa ou ao morro do sal...
As rodilhas eram feitas de panos macios, de lã ou lenços usados,
que se dobravam muito direitos, depois eram enrolados à volta da
mão, e enrolava-se um fio à volta. Havia quem depois tapasse o
buraco para evitar que o sal entrasse...
Muitas histórias teria para contar, porque era-mos muito unidas,
embora nem todas tirasse-mos as mesmas marinhas, lembro-me de coisas
divertidas e das partidas que fazíamos aos marnotos!
Por exemplo, havia um que tinha por hábito cozer batatas com a
pele: um dia dissemos que íamos cozer as batatas para ele e o
filho...; cozemos as batatas e chamámos para ver se estavam cozidas
ao gosto dele e temperadas.
Ele prova e diz que sim, que se podiam escorrer, e nós
dissémos-lhe que o fizesse...; ele assim fez, mas dentro da panela
só estava a outra talhada de batata!
Numa outra trocávamos os lanches... uma das minhas colegas diz :
desta vez vocês não vão encontrar o meu lanche, ele está bem
escondido... só que ela se esqueceu que as maçãs tinham um cheirinho
muito bom e nós demos com elas pelo cheiro!
É vergonhoso dizê-lo mas dessa vez quem comeu as maçãs fomos nós!
Ele teve de se contentar com o nosso pão com marmelada!
Mas também houve momentos "quase trágicos"...; um dia de grande
vento um jovem barqueiro teimoso e que não queria dar parte de fraco
quase nos fez naufragar; fomos nós, 2 moças e uma senhora de mais
idade que tivemos que atravessar com o barco na "Barca da passagem"
à vara porque ele acabou por ficar meio desmaiado! Depois disso
atravessámos muitas vezes mas com tempo calmo e por vezes a remos.
Uma outra vez no mesmo sítio, mas dessa vez com homens que
conheciam bem, andámos duas horas perdidos com o nevoeiro e quando
demos por isso não tinha-mos saído do mesmo sítio!
Elisabete da Silva -
2003/05/17
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