Museu do Sal

Vida dura de marnoto na Ilha da Morraceira

É solúvel em água e regra geral, indispensável na culinária. Chega a casa de todos em pequenos sacos de quilo, não dá muito dinheiro mas faz verter muito suor. Falamos do sal, que na Figueira, dizem os de cá, é do melhore do mundo e trabalhado com muito amor pelos marnotos. O Diário de Coimbra foi conhecer um dos homens que ajuda a dar “sabor” à vida.

Em finais da década de 50 e nos anos 60, os marnotos chegaram a ser cerca de 2 mil, particularmente da zona de Lavos, para cerca de 300 salinas que funcionavam em pleno. Hoje, haverá cerca de meia centena, para um número ainda inferior de marnotos, pois um só homem pode trabalhar em várias salinas.

José Augusto Pedrosa da Silva tem 66 anos e começou a trabalhar aos 13. A sua vida foi sempre dedicada ao sal ou à seca do bacalhau. Do seu trabalho fala com amor e grande dedicação, a mesma que contribuiu para que o fossemos encontrar a tratar da “sua” marinha (que mantém em sociedade com outra pessoa), em Venturas (Ilha da Morraceira), quase em finais de Setembro, a queimar “os últimos cartuchos”.

Numa linguagem muito própria, José Augusto vai explicando todo o processo de transformação, exemplificando com os utensílios, também eles com nomes que por si só, precisariam de dicionário próprio, (ugalhos de raer, puxar ou mexer, raza, cilha, circio, entre muitos outros ). «Primeiro limpa-se a salina, leva sal e água e cria o “fermento”, depois leva água salgada até agarrar o grau, e começa-se a fazer o sal, a água entra pelos canos em pinguinha para cada talho e depois tem de ser mexido», sublinha, numa azáfama permanente.

E actualmente, por ser em muito menos quantidade, o sal «dá menos trabalho», mas mesmo assim, «muita luta e despesa e depende sempre do tempo (condições climatéricas)». José Augusto vende a retalho para o comércio e por isso, o dinheiro é sempre pouco. «Hoje vende-se um pouquinho, amanhã outro», diz falando na Câmara de Soure, um cliente «certo», que lhe compra o sal «para tratamento das águas». Uma boa aquisição, a julgar pelo entusiasmo deste marnoto, que não tem dúvidas, «este é dos melhores ou mesmo o melhor sal do mundo», porque um vem das «minas», outro «dos tanques» e a outro «metem areia», mas o da Figueira «é mesmo puro».

Triste porque actualmente muitas salinas «estão em pousio» e outras, muitas «estão a peixe», este marnoto garante que, num ano «bom, bom» (e entenda-se por ano, o período de Maio a Setembro), «a marinha toda dá aí uns 10 barcos». Porque José Augusto “pesa” o sal em barcos que era a forma de antigamente ser transportado, pois não havia estrada e era levado à cabeça pelas mulheres até aos bateis de sal. Ao todo serão à volta de 50 toneladas, vendidas a 9 cêntimos o quilo.

Por isso, «a vida é difícil», diz, falando na “magra” reforma, de 200 euros, «roubaram-me, eu descontava mas os descontos não entraram durante alguns anos», mas concluindo com um saudável «contentámo-nos com pouco, logo que haja saúde».

Bela Coutinho - in Diário de Coimbra - 2004/10/04


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