Museu do Sal

História de um cristal de sal

Salito nasceu na marinha do "Corredor da Cobra", nos Armazéns de Lavos, numa bela manhã de Agosto. A Mãe-Natureza olhou para ele e sorriu orgulhosa. Que brilhante, que perfeição, que cristalino!

Salito espreguiçou-se e deu vivas ao Sol, deu vivas à Água e saudando o agradável Vento olhou em redor e deu conta de que não nascera sozinho. Havia ao seu lado muitos, imensos cristaizinhos cúbicos iguais a si que sorriam brilhantes, alguns ainda dispersos outros já aconchegados em pirâmides brancas de enorme pureza.

Que grande família! pensou.

- Olá. Bem-vindo à família do Sal.

Salito voltou-se e todo o seu corpinho facetado resplandeceu a brilhar em todas as direcções. A voz vinha duma pirâmide ali ao seu lado onde Salito encontrou um cristal grande, com ar grave, salgado e robusto que reluzia para ele.

- Olá! Respondeu ainda tímido. Também nasceste agora?

- Não. Nasci vai para cinco sóis e quando cheguei já a família ia abundante aqui na salina.

- Quantos somos? De onde vimos? Para que servimos? perguntou Salito, muito curioso, olhando em redor, para uma imensidão de branco.

- Calma, calma. Uma pergunta de cada vez. rapaz. Saberás tu contar quantos grãos de areia existem na praia e quantas estrelas há no céu?

Salito, que não percebia nada de estrelas nem de areia, achou muito enigmáticas estas palavras do robusto e pouco explicado cristal, mas resolveu fingir que entendia enquanto a explicação continuava.

- Todos os anos a nossa história começa na Primavera (Maio) e termina no começo do Outono (Setembro). Dizem que mesmo antes dos primeiros reis de Portugal já existiam marinhas (ou salinas) nesta região da Figueira da Foz. Como vês é muito antiga a nossa história mas, embora abundantes na natureza, não podemos ser extraídos em qualquer parte. De facto, só nas minas, nas nascentes salgadas e em marinhas como esta, é que podemos ser extraídos.

- E depois, e depois? quis saber Salito, cada vez mais intrigado com o teor da narração.

- Bem, toda a nossa vida se deve ao trabalho dos marnotos que nas salinas vão, dia-após-dia, enchendo pacientemente os viveiros com água do estuário do Mondego, que depois vai passando para compartimentos (talhões ou sertões) cada vez mais pequenos.

- E depois, e depois? - continuava Salito, cada vez mais brilhante de curiosidade.

- Depois é connosco, e tu mesmo saberás explicar o que acontece, pois acabaste por passar essas experiências. Ainda sob a forma de minúsculas partículas minerais dispersas na água, atravessamos a vasa, as cabeceiras e os sertões onde vamos deixando ficar os elementos que os marnotos não querem. Para passarmos do estado líquido ao estado sólido (processo de cristalização) necessitamos de vento, sol e acima de tudo da ajuda preciosa dos marnotos que nos tratam com devoção. Na água vai ficando cada vez mais concentrada a substância que nos dará o nome: o cloreto de sódio.

- Então nós somos cloreto de sódio? perguntava o pequeno cristal já um pouco baralhado.

- Pois claro que somos. Aquilo a que dão o nome de sal, não é mais do que o conjunto de todos os cristais que, como tu e eu, se encontram agora branquinhos a reluzir ao sol.

Salito estava fascinado. Que história bonita e interessante a sua! - E mais, e mais? quis saber.

- Se houver sól e vento favoráveis, de 3 em 3 dias, os marnotos vão fazendo a nossa colheita até meados de Setembro, enchendo periodicamente os viveiros para que a água pura nunca nos falte.

-Sim, sim - concordou Salito, que já começava a ligar todos os aspectos - eu bem sei como a água fresquinha e pura me foi sabendo às mil maravilhas e fez de mim este belo cristal branco. Mas - interrompeu - que estão aqueles homens a fazer com aquele sal?

- É como te vinha dizendo. Aqueles, são os marnotos da nossa salina, o Senhor Manuel e o Senhor Zé que, com muita arte e saber, nos vão Juntando com a ajuda de ugalhos e nos carregam para os armazéns das marinhas que têm, alguns, capacidade para mais de 100 toneladas de sal.

Salito estava cada vez mais esclarecido e muito orgulhoso de pertencer a uma família nascida e criada com tão bons tratos.

Nos dias seguintes, Salito via nascer mais cristaizinhos de sal, observava o cuidado tido com a sua extracção e arrecadação nos característicos armazéns em madeira, acompanhava o processo da sua embalagem em grandes sacos e começava a compreender o seu destino. Tinha escutado uma professora explicando aos seus alunos, que o Homem lhe dava múltiplas utilizações - para mais de 1000, imagine-se - e dia-após-dia o seu "ego" cristalino crescia em importância e orgulho.

Aprendera que nos tempos da Roma Antiga, foi tamanha a sua importância que chegou a ser utilizado com o valor de moeda de troca. Actualmente aprendeu que podia vir a ser utilizado na alimentação do homem tornando mais saborosos e apaladados os alimentos, no processo de fingimento de tecidos, no fabrico de plástico, na curtição de peles, para ajudar a derreter o gelo nas estradas, para fabrico de rações para animais, no tratamento de águas, na conservação de alimentos e tantos, tantos outros fins.

Salito era um cristal feliz e depressa compreendeu também a importância de se preservar a sua cultura para a sobrevivência da fauna e flora específicas do ecossistema em que nascera. Tinha feito amizade com vários perna-longas, nascidos aquando ele, e achava graça àquelas aves elegantes de pés vermelhos e aos seus gritos estridentes.

Fizera também conhecimento com algumas plantas, muito especialmente com o cacheiro, planta típica das salinas que vive absorvendo a água salgada e se torna já muito apreciada na alimentação de alguns países.

Vaidoso do seu papel, habituou-se às visitas e curiosidade de muitas pessoas que, em passeio ou em estudo, lhe teceram largos elogios à brancura e foi ouvindo dizer maravilhas da sua região de características tão singulares no país.


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