in FIGUEIRA DA FOZ
José Pedro Aboim Borges
Editorial
Presença - 1991 |
História
O crescimento urbano da Figueira da Foz acompanhou de perto o seu
crescimento económico. A excelente localização geográfica, o porto,
a navegabilidade do Mondego e a rica região que a circundava
permitiram a progressiva afirmação da Figueira como importante
entreposto mercantil, suplantando primeiramente o porto de Buarcos e
substituindo posteriormente o de Aveiro, vítima de assoreamento,
impedindo o importante movimento que então detinha. O porto da
Figueira adquire foros de primeira praça mercantil da Beira, e
terceira do país, começando o seu declínio a desenhar-se nos finais
do século XIX, quando o porto sofre o assoreamento das areias do
Mondego, ocasionando diversos projectos para obviar tal situação.
O primeiro povoado da Figueira encontra-se
descrito, de forma sumária, na doação do Abade Pedro, de 1096, onde
se fala das casas necessárias que edificara, bem como das boas
torres que as protegeriam. Simultaneamente, reedificara a Igreja de
S. Julião, verdadeiro polo aglutinador do futuro povoado. As
herdades da Figueira encontravam-se situadas a poente daquela
Igreja. Assim, daqui até ao paul (perto da fonte), teria nascido o
primeiro núcleo urbano. Situadas a nascente de S. Julião, as outras
herdades com ela confinantes perdem a denominação de Tamargueira.
Deste modo, a Figueira teria crescido pelo pequeno monte que descia
para o rio, prolongando-se até às planícies da Salmanha e ao cimo do
Viso.
As informações sobre o seu crescimento urbano
restringem-se a documentos de compra e venda de casa sitas no lugar
da Figueira da Foz do Mondego, como é o caso de Pedro Torto, em
1339. Verifica-se um crescimento lento, ombreado pelo poder da
vizinha Buarcos, ciosa das naus e do seu pescado. Nos inícios do
século XVII, Buarcos entra em declínio devido a questões de
donataria e ao papel tremendo que a Inquisição teve no despovoamento
desta vila (o número de supliciados e presos ultrapassou a centena e
meia).
Ao longo do século XVII e inícios do século
XVIII, a Figueira cresce na razão e ritmo inversos aos de Buarcos e
de Redondos, acompanhando o crescimento do seu porto. Os habitantes
destas duas vilas vão-se transferindo progressivamente para a
Figueira, que oferecia melhores condições de protecção, de
crescimento económico e de salubridade, bem como uma maior imunidade
aos poderes senhoriais que aqui se faziam sentir. Em 1771, ano da
sua elevação a vila, a Figueira tinha 2.350 habitantes, que
aumentará em 50% entre os anos de 1781 e 1796, tornando premente o
problema do alojamento.
A construção de habitações e a procura de novos
espaços urbanizáveis reflectem-se no aumento do rendimento das
casas, que quadruplica neste período. Paralelamente, o afluxo de
banhistas, que aqui vinham a conselho médico, acentua-se, criando
situações pontuais de difícil resolução.
A crescente importância mercantil, devida à
indústria e ao comércio nascentes, coloca como prioridade a criação
de uma praça, que valorizasse a nova vila.
A área urbana da Figueira tinha três praias
fluviais: a da Fonte (a norte), a da Ribeira (ao centro) e a da
Reboleira (a sul). Na margem da praia da Ribeira tinha lugar o
mercado de géneros, cujo crescimento permitiu a realização de uma
feira semanal, autorizada por provisão régia. Era esta praia
igualmente ancoradouro e local de estaleiros navais.
A 4 de Fevereiro de 1777, deliberou a Câmara
alterar a praça e construir um muro na sua embocadura, para
«embaraçar o corso das marés», funcionando como couraça. Implicando
elevados gastos, tornava-se necessário recorrer à finta, uma taxa
especial que carecia da necessária autorização régia. Efectuado o
procedimento legal, tal não entendeu o Governo, pelo que a Câmara,
usando das suas faculdades de lançar imposto até ao montante de
4$000 réis, ao abrigo das Ordenações do Reino, e com a respectiva
autorização do corregedor, decidiu a construção da praça no dia 17
desse mesmo mês.
Sete anos mais tarde, estava a Praça da Ribeira
livre de águas, com a conclusão da construção do muro, servindo como
cais, e do aterro da Ribeira. Esta praça tornou-se rapidamente no
centro nevrálgico da vila, verificando-se aí importantes
transacções, e onde as gentes mais gradas da terra tinham as suas
casas. Diversas provisões camarárias atestam o seu papel de primeiro
mercado, destacando-se aquelas que obrigavam os mercadores a iniciar
ali a venda dos seus produtos, antes de prosseguirem pelo resto das
ruas. Em 1782 é erguido o pelourinho, símbolo da nova categoria
autárquica.
Mudado o nome para Praça do Comércio em 1791,
identificando de forma mais estreita a sua verdadeira função, era
bordejada por excelentes edifícios, alguns dos quais providos de
couraças privativas de descarga, verdadeiros cais de desembarque de
mercadorias. O dinamismo manifestado pelos comerciantes figueirenses
cedo demonstrou a exiguidade da praça, pelo que se estudou a
viabilidade de um novo muro, a construir mais a sul. Entre 1850 e
1857, decorrem os trabalhos, dando lugar a um espaço que cobria toda
a Ribeira, mantendo a designação de Praça do Comércio. Segundo
inscrição na calçada da praça, em 1879 estava a zona mais antiga
toda arborizada e com bancos, ostentando uma zona central, calcetada
a basalto, no meio da qual uma grande circunferência delimitava uma
estrela. Junto dos prédios eram visíveis passeios de cantaria, e nos
meias antigos, rebatos altos e moldados impediam a entrada das
águas, reminiscência das grandes marés. A parte sul, em macadame mal
cilindrado, estendia-se até ao cais, igualmente arborizado e com
passeios recentes.
A 9 de Junho de 1880, quando das festas dedicadas
a Luís de Camões, deliberou a Câmara designar este novo espaço
conquistado ao Mondego de Largo Luís de Camões. Este pequeno espaço
social possuía calçada à portuguesa, e o seu desenho aparentava-se
ao do Rossio de Lisboa. No seu centro seria colocado o Monumento aos
Mortos da Grande Guerra, projecto de António Augusto Gonçalves,
inaugurado em Setembro de 1928.
Estas duas praças foram palco de corridas a
cavalo e de corridas de toiros. Em 1932, toda a praça foi
remodelada, com o nome de Praça General Freire de Andrade, tendo
sido inaugurada a estátua do Primeiro Soldado Português caído na
Grande Guerra, António Curado.
Nesta praça esteve instalada a biblioteca
municipal, num edifício com uma varanda de grandes dimensões, onde
se destaca o trabalho de cantaria das janelas, proveniente do
convento de Seiça.
O bem-estar dos cidadãos era preocupação do
Município. Foram diversos os melhoramentos introduzidos como os que
emanaram das deliberações camarárias de 9 de Janeiro de 1773, que
determinavam o calcetamento e a ornamentação da vila, para
«aformoseamento da vila e pureza do ar». O projecto inicial visava
empredar os pavimentos de todas as ruas, em especial os do centro,
de maior trânsito. O intuito era aliar impacto visual e
estabilidade, perante o crescente tráfego pesado.
Como condição primeira, deveriam os proprietários
calçarem a frente da suas casas até uma braça de largura, sendo de
duas braças nas ruas mais largas, ou pagarem uma taxa segundo os
seus proventos. O restante pavimento seria calçado com o subsídio
proveniente da «finta», tal como sucedera para o aterro da Praça do
Comércio. Como não bastasse todo este envolvimento económico, a
Câmara deliberou que «cada dono de carro contribua com 15 carradas
de pedra», considerando serem estes os que mais destruíam os
pavimentos.
A primeira calçada conhecida é a da Rua de Santo
António, pavimentada de seixos. Em 1779, o juiz de fora, em petição
à rainha, afirmava que «a villa já se podia considerar uma das mais
notáveis que sua magestade tinha no seu reino». Era possível
circular nas ruas da Figueira, mesmo em dias de chuva, pois
encontravam-se quase todas calcetadas. Outras posturas, em 1786,
contemplavam quer o problema da distribuição dos géneros
alimentícios, quer a própria salubridade da vila.
Crescendo ao longo dos principais eixos viários,
a vila era travada pelas bolsas formadas pelas praias da Ribeira,
Reboleira e da Fonte. A primeira transformara-se na Praça do
Comércio, a segunda iria originar a Praça 8 de Maio, a última
tornar-se-ia no Jardim Municipal. Num curto espaço de tempo, a
Câmara conquistara importante terreno mar, ao mesmo tempo que
lançava as bases da futura área urbana, virada definitivamente para
o rio, e onde as três praças, equidistantes entre si, ordenavam as
funções para que tinham sido projectadas: o centro económico, o
centro cívico e político, o centro de lazer.
A Praia da Reboleira, cujo aterro se iniciou em
1784, prepara a futura Praça 8 de Maio. Situada imediatamente abaixo
da Praça do Comércio, o novo aterro encontra problemas cuja
resolução implicava avultadas despesas, pois era necessário
movimentar terras e construir muros e couraças. Em 17 de Novembro de
1784, a Câmara decide recorrer ao imposto do Real de Água para
financiar a construção de uma fonte na Lapa, um muro com duas
couraças e uma «praça na Praia da Reboleira para o bom ordenamento
do sítio».
De facto, quer as marés, quer as águas de um
ribeiro que nela desaguavam, impediam frequentemente o trânsito
pedestre para o lado ocidental da povoação. Daqui partiam duas
importantes vias de comunicação, o Caminho do Monte, futura Ruas dos
Ferreiros, que se dirigia para norte, e uma outra, que se dirigia
para o Velho Casal das Lamas, atravessando a Rua Direita do Monte,
permitindo o acesso a Vila Verde e outras povoações vizinhas.
Existia nesta praia importante conjunto
habitacional, explicável pela afluência de banhistas. Em 1736, seis
parcelas de terreno foram separadas para edificações, a que se
seguiria, entre 1737 e 1740, mais fraccionamento de propriedade,
pelo que em meados do século XVIII a praia da Reboleira apresentava
um enquadramento urbano importante na zona ocidental, que se
manteria na nova praça.
Este tipo de fraccionamento, sofrendo uma espécie
de desamortização, começara a ser objecto de várias transacções,
ficando ao alcance dos pequenos capitais, facilitando a sua
circulação. Toda esta actividade financeira e imobiliária permitiu o
crescimento urbano para nascente, alcançando a parte ocidental e
meridional do Monte, e o Velho Cerrado da Lomba.
A praça ficou concluída em 1795, terminando-se o
alinhamento dos prédios em 1818. Possuía uma couraça que vedava a
praia, transformando-se progressivamente em cais de descarga e
carga. Esta Praça Nova, que tomaria o nome de Praça da Alegria, só a
partir de 1880 guardaria a designação actual: Praça 8 de Maio,
comemorando, desta maneira, a entrada do exército liberal na
Figueira da Foz, a 8 de Maio de 1834.
Durante quase um século, esta seria o centro de
todo o movimento social e político figueirense. Paravam aqui as
diligências provenientes de Coimbra, aqui sediavam os
estabelecimentos comerciais e as repartições públicas. O Hotel
Figueirense era palco de exibições circenses. O Café Central era o
local de encontro dos artistas.
O Boulevard 8 de Maio, como chegou a ser
pomposamente chamado conquistara o estatuto de bairro mais elegante:
«compõe-se de ruas longas e elegantes, onde as construções se
multiplicam com uma rapidez prodigiosa. Dentro de muito pouco tempo,
este bairro há-de ser o rendez-vouz do comércio e da elegância da
cidade». Nele foi edificado o monumento a Manuel Fernandes Tomás,
inaugurado em 1911, estátua de bronze do escultor gaiense Fernandes
de Sá, de um «expressionismo primário», que homenageia o grande
vulto figueirense do Sinédrio e do Liberalismo.
Com a progressiva regularização da margem direita
do Mondego para construção da doca, aliada ao espaço proporcionado
pelas duas praças, uma larga de terreno foi conquistada ao rio. O
crescimento urbano nesta zona foi intenso, permitindo inclusivamente
a fundação de um novo bairro, o do Teatro, em meados do século XIX.
A sua construção determinou o desaparecimento das couraças
pertencentes aos armazéns da Rua das Lamas, evitando,
simultaneamente, a perigosa desembocadura da Estrada de Coimbra na
Praça Nova, pela Ladeira dos Marques. Neste novo cais parava o carro
americano, introduzido pela Companhia das Minas do Cabo Mondego,
cujo percurso atravessava Buarcos, a praia e o Bairro Novo,
verdadeira via dos banhistas.
Entre 1860 e 1884, o desenvolvimento artístico e
cultural figueirense acompanha o crescimento económico e urbano, que
se acentua entre 1870 1880. O comércio de exportação de vinhos para
o Brasil e França, o sal para a Terra Nova, a madeira para o sul
Espanha e a laranja para Inglaterra favorecem a promoção social dos
grupos a ele ligados, arrastando os da indústria artesanal de ponta
(tanoaria, construção naval).
Paralelamente, o Bairro Novo marca o novo eixo de
crescimento no sentido oeste, nascido da iniciativa de Francisco
Maria Pereira da Silva, que fundou a Companhia Edificadora Figueirense, em
1861, com o intuito de construir uma nova área urbana, perto do
forte de Santa Catarina, e de que tomou o nome. Baseando-se na
organização e moldes de empresas congéneres das praias francesas
então em voga, como Arcachon, Biarritz e Dieppe, pretendia fazer
face à crescente procura de habitação pelos banhistas, cuja vinda
para a Figueira aumentara grandemente a partir de 1852.
A sua malha reticulada e regular contrasta com a
distribuição não programada das ruas do núcleo inicial. Bairro dos
veraneantes e do lazer, nele se encontram algumas das mais belas
casa oitocentistas e dos inícios de Novecentos, com belas varandas,
beirais à portuguesa delineados por belos azulejos florais Arte
Nova, e outras soluções decorativas que não escondem a influência
tanto daquela como da Art Déco. Aqui se encontram os mais
importantes cafés, hotéis, o Grande Casino Peninsular (antigo Teatro
Circo Saraiva de Carvalho) e o Casino Oceano. O Bairro Novo
rivalizava com a Praça 8 de Maio como o centro cosmopolita da
Figueira.
O Teatro teve sempre papel privilegiado na
Figueira. No início, as récitas tinham lugar no piso inferior da
Casa do Paço, destruído a 14 de Outubro de 1860. Três anos depois
construi-se o Teatro do Pinhal, seguindo-se o Teatro Natalense em
1867, o Teatro Príncipe D. Carlos, em 1871, localizado face ao
porto, e destruído por incêndio na noite de 24 para 25 de Fevereiro
de 1914. Em 1883 é edificado o Teatro-Circo Saraiva de Carvalho.
Hoje resta o Teatro dos Caras-Direitas, em Buarcos, e o celebrado
Festival de Cinema da Figueira da Foz.
A 3 de Julho de 1882 é inaugurado oficialmente o
ramal Pampilhosa - Figueira da Foz, obra conseguida por Saraiva de
Carvalho e pertença do Caminho de Ferro da Beira Alta, com a
presença dos monarcas, D. Luís e D. Maria Pia, e seus dois filhos,
os príncipes D. Carlos e D. Afonso.
O caminho-de-ferro vai ampliar a capacidade de
oferta de acesso à Figueira, com acesso directo a Espanha, e
simultaneamente atrair ao seu porto um maior número de mercadorias.
Pouco depois, a mesma linha estende-se até Leiria. Uma das primeiras
consequências é o crescimento urbano para leste, urbanizando as
zonas adjacentes ao rio Mondego, a montante da Praça 8 de Maio, e
ligando o bairro do Teatro à nova estação ferroviária.
Apresentando uma malha reticulada e regular,
caracteriza-se pelas três largas avenidas longitudinais que ligam
aquela praça ao Largo da Estação, lembrando a disposição da Baixa
pombalina: um espaço de recepção ligado a um espaço de distribuição.
Caracteriza-se o bairro pelas suas casas comerciais, com grandes
armazéns, à imagem de algumas das ruas da Baixa lisboeta, e por
alguns interessantes exemplares arquitectónicos, particularmente os
virados para o rio.
Em 1891, a terceira praia, da Fonte, foi
transformada em Jardim Municipal, espaço de lazer por excelência. No
seu topo norte construiu-se o novo Mercado Municipal Engenheiro
Silva, em 1892, de planta quadrangular, cuja característica mais
saliente é a sua integral cobertura por uma alta cúpula de ferro.
O século XX vê a Figueira crescer ao longo da
praia, a nova fonte de riqueza, dada a problemática situação da
barra, cuja obras de desassoreamento nunca foram definitivas.
Crescendo na direcção de Buarcos, a Figueira aglutina, numa primeira
fase, a pequena aldeia de Palheiros, com as características casas de
madeira, construídas sobre o bojo de um barco. Palheiros torna-se,
assim, a ligação efectiva entre Figueira e Buarcos, cuja unificação
é concretizada em meados deste século, com a construção da Avenida
Marginal.
Mas se a Figueira assiste a um período de
edificação extremamente acelerado nos últimos vinte anos, ocupando
áreas do interior que a aproximam da vizinha e ex-inimiga Tavarede,
prevendo-se igualmente a sua reunião para breve, Buarcos conseguiu
manter uma certa tradição no seu casario, mandando para a antiga
Redondos as novas construções, que beneficiam, aliás, de uma bela
panorâmica. Este último quarto de século tem visto a ampliação da
área urbana da cidade, onde a construção em altura predomina sobre a
construção individual e média, introduzindo notas assaz delicadas e
discriminantes na leitura geral da cidade.
Do pequeno aglomerado piscatório do século XI,
subordinado administrativamente a Tavarede e economicamente a
Buarcos, a Figueira transformou-se no pólo aglutinador destas duas
povoações, que se arriscam a perder a sua identidade para a grande
polis que se adivinha.
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