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Multidão afastou o frio pela noite dentro. Marchas e arraiais
coloriram a cidade.
A enchente de anos anteriores voltou de novo à Figueira, com
milhares de foliões a quererem “brincar” ao S. João. E se no desfile
de marchas populares a moldura humana era jeitosa, já pela noite
dentro, os bailaricos e as ruas “rebentavam pelas costuras”
A tradição voltou a repetir-se, com uma noite de S. João longa,
concorrida e animada. Por todo o lado, as viaturas arrumaram-se nos
estacionamentos, nos passeios, nos relvados e à hora do início das
marchas, nos restaurantes as filas eram imensas, à espera de uma
mesa, para sossegar o estômago e talvez por isso, é que quando o
desfile começou, a moldura humana não impressionava. Só que,
lentamente, a “coisa” foi-se compondo e no final do
fogo-de-artifício («o mais fraco dos últimos anos», diziam alguns),
a confusão era tanta, que era difícil percorrer as ruas.
Da feira popular apinhada de gente, ao Forte de Santa Catarina
onde decorria uma festa “jovem”, à Avenida 25 de Abril, Esplanada
Silva Guimarães, Ruas Bernardo Lopes e de S. Lourenço (onde os
bailaricos estavam mais animados com música ao vivo), até ao S. João
do Vale, por todo o lado o movimento era imenso e os “martelinhos”
davam um ar da sua graça. O cheiro a sardinha assada orientava os
passos, enquanto que as cervejas, caipirinhas, ginjinhas e outras
bebidas espirituosas, eram consumidas num abrir e fechar de olhos.
Marchas populares
Para trás ficava então o evento mais aguardado pelas pessoas, o
desfile das marchas populares, que se iniciava com a “sempre”
Imperial Neptuna, a Tuna da Cidade da Figueira, este ano acompanhada
pela tuna irmã, da Universidade de Évora. Seguiam-se as
participações fora do concelho e extra- concurso, a Mocidade Futebol
Clube de Cheira de Penacova, com 65 participantes que representaram
a “Desfolhada”, as Marchas Populares de Souselas com 60
participantes (entre os quais muitas crianças) e o tema “Os amores
de Inês”, a marcha popular do Grupo de Danças e Cantares “Viver em
Alegria” de Fala, Coimbra, a marcha “Antanhol é um jardim” de
Antanhol (Coimbra), com o tema “Rosas) e a marcha popular da Mata
Mourisca (Pombal), com a temática “As borboletas”.
Para serem pontuadas pelo júri composto por Lina Cação, Tesha,
Adelino Martins, Parracho Alves e José Contente, apresentaram-se as
marchas figueirenses. A abrir, a do Grupo Instrução e Recreio
Quiaense, com o tema “A Primavera diz adeus ao S, João”, a mais
numerosa, com 100 participantes, em que os homens se apresentavam
como jardineiros, as mulheres como flores, os arcos floridos e
cheios de andorinhas. Um grupo vivo, alegre e colorido. Também da
mesma freguesia, participou o Quiaios Clube, que evocaram as
“Tabernas de Quiaios, que, refira-se, em meados do século XX eram
bastantes naquela freguesia. Eram um local onde os homens se
reuniam, particularmente à noite e ao fim-de-semana, jogando às
cartas, malha, falando da vida alheia e a beber uns copos. No
desfile, nem a “zaragata” ou a representação do “Zé Povinho” e o seu
famoso gesto para o fiado foi esquecido.
A freguesia de Lavos esteve presente com 50 participantes do
Sport Clube de Lavos, que desenvolveram o tema “Mercado da
Figueira”. Uma marcha com muita juventude, que recriava os pregões e
bancas do mercado, numa música viva e alegre, que poderá vir a ser
aproveitada para “alegrar” aquele histórico espaço, pois fazem
referência ao mar, rio, aos barcos com peixe fresco, aos vendedores
de legumes, pão, ovos, fruta, sem esquecer o S. João, que outrora
era famoso pelos bailes no mercado.
Finalmente, o Grupo Instrução e Sport, com o tema “Buarcos com
sabor a romaria”, recreando a romaria ao S. João, já que,
antigamente, os homens se faziam ao mar por longos períodos de tempo
e quando regressavam, quase sempre pela altura dos santos populares,
Buarcos engalanava-se para os receber. Essa alegria e ambiente de
festa foi revivido na letra e música desta colorida marcha, que
encerrou o desfile.
Bela Coutinho - in Diário de Coimbra - 2006/06/25
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São João da Figueira
Nas ondas do mar vagueia
Enfeitada uma traineira,
Traz na proa uma sereia
A caminho da Figueira.
Falta pouco p’ra chegar
Ao centro da confusão,
Onde o povo a delirar
Já festeja o São João.
Numa grande correria
Toda a gente sai de casa,
Dança o Zé, dança a Maria,
Dança a sardinha na brasa.
E o poeta em sobressalto
Faz quadras num balão,
P’ra que os versos subam alto
Na noite de São João.
Há pessoas aos milhares
Ao longo da Marginal,
A ver as Marchas Populares
Com cheirinho a terra e sal.
Brevemente terá início
Na Praia da Claridade
Esse fogo d’artificio
Que fascina esta cidade.
A sereia deslumbrada
Assiste a tudo com espanto
E só parte de madrugada,
No final do Banho Santo.
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