“Enterro do Bacalhau” assinala fim da Quaresma

Apesar da ameaça do mau tempo a noite de sábado esteve excelente e permitiu cumprir o tradicional “enterro de bacalhau”, organizado pela Sociedade Filarmónica 10 de Agosto, que assinalou o final da Quaresma e do período de comer só peixe.

A Filarmónica Dez de Agosto voltou a sair à rua para cumprir o “enterro do bacalhau”, uma tradição centenária de arreigados costumes na Figueira da Foz e por isso mesmo motivador de manifestações com algum valor etnográfico.

É certo que nunca terá passado de um folclore urbano, nem por isso as bases em que assente podem ser ignoradas, tanto mais que numa primeira leitura elas apresentam uma forma de protesto pela proibição religiosa de ingestão de carne durante um certo período do ano (Quaresma).

Na ocasião, naturalmente, o bacalhau face à possibilidade da sua longa conservação seria o alimento que enfastiava tudo e todos, especialmente os povos do interior.

Mas mesmo possuindo peixe fresco em abundância, também a Figueira da Foz assumiu à época a tradição do “enterro do bacalhau”, talvez até como simples pretexto.

Contudo, esta manifestação popular após um certo apogeu caiu em desuso, certamente porque as normas religiosas passaram a ser mais flexíveis e a utilização do bacalhau acompanha a evolução dos usos, costumes… e das necessidades.

A partir da década de 80 reapareceu não tanto para fazer passar a mensagem de um grito de protesto deslocado no tempo, mas essencialmente para chamar a atenção dos figueirenses para os problemas de uma colectividade de passado honroso, mas com um presente pouco risonho.

Mudam os tempos, mudam-se as vontades e modernizam-se as tradições.

Com o “enterro do bacalhau” isso aconteceu a partir de 1993, em que o “dori” transportado por um carro de bois, passou a ir numa camioneta e assim tem acontecido, repetindo-se todos os anos, passando pelo mesmo trajecto, para paragens praticamente nos mesmo locais, (Rua da República, Mercado Municipal, Bairro Novo, Viso, Paul, Praça 8.º de Maio e Vale) onde o pregador (Alfredo Lopes) vai fazendo a sua crítica social, destacando-se este ano, nomeadamente, na rua da República, a crise no comércio e o Terminal Rodoviário.

Mais adiante o alvo foi o mercado «que está bonito mas às moscas», não poupando o Jardim Municipal «onde não há flores para ninguém e pombas não há também». O enterro lá foi seguindo e no Bairro Novo o funeral ainda foi maior com um forte choradinho ao moribundo Picadeiro: «O parque cine acabou, o parque de diversões também. O Oceano fechou, acabaram com o cinema, açambarcaram mais dinheiro e cagaram pró picadeiro». O Bairro Novo quem te viu e quem te vê!...

Foi esta a tónica da crítica nas diversas paragens do “Enterro do Bacalhau”, ao som da Filarmónica Dez de Agosto.

José Santos - in Diário de Coimbra - 2006/04/17


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