"Enterro
do bacalhau" cumpriu a tradição
Na noite do
passado sábado (2003/04/19) a tradição voltou a
cumprir-se com o "enterro do bacalhau". O tempo
não estava muito convidativo, mas mesmo assim, as pessoas
saíram à rua para ver o cortejo daquele que já foi o
"fiel amigo" e ouvir as "bocas" ao que
de menos bom acontece na Figueira e no país.
Apesar dos
tempos de contenção, o "enterro do bacalhau"
saiu este ano à rua mais "rico", uma vez que no
cortejo, organizado como sempre pela Sociedade Filarmónica
Dez de Agosto, participaram pela primeira vez numa
"parceria histórica", elementos da Sociedade
Filarmónica Figueirense. Quanto ao cortejo, cumpriu a
tradição, com paragens na Rua da República, no Casino, no
Viso, no Jardim Municipal e no Vale.
Este é um
"ritual" que se cumpre anualmente há muitas
décadas e que terá tido origem no facto de, antigamente
existir na Figueira da Foz uma grande comunidade
piscatória, que durante a quaresma, por não poderem pagar
a bula ao padre, eram "forçados" a comer
diariamente bacalhau. Por isso, no final da dieta forçada,
enterravam o bacalhau, pois já podiam comer o que
quisessem.
Mas o
cortejo era também aproveitado pelo "orador", ir
tecendo algumas críticas, adequadas aos locais onde
passava.
E foi o que
aconteceu, com Alfredo Lopes, logo na primeira paragem, e ao
som da filarmónica, a recordar como o bacalhau era um
valioso sustento dos pobres, contrariamente ao que acontece
actualmente.
Mas na Rua
da República, houve ainda oportunidade para se falar das
contínuas inundações que invadem aquela rua comercial,
sempre que há uma chuvada mais forte. Falando dos locais de
escoamento de água, o "orador", dentro de um
dóri, dizia que "continuam entupidas / a fazer coisas
feias / vai daí vim de barco / para enfrentar as
cheias".
As obras
das pontes (a da Figueira e a dos Arcos), também não foram
esquecidas e a prometida nova sede para a junta de freguesia
de S. Julião, também não. "É que a nossa sede da
junta / é o campo de golfe número dois / diz que vai, diz
que vai / e fica sempre para depois".
E o cortejo
prosseguiu até à paragem seguinte, o Mercado Municipal,
onde se focaram os problemas que têm existido, com os
frangos, as vacas, os porcos.
Mas nessa
zona, com o rio a desembocar no mar, numa barra sempre
polémica, focaram-se as obras do porto: "não sei se
está esquecido / a construção do molhe norte / mas julgo
que só o verei/depois da minha morte".
Prosseguindo
rumo ao Casino, com cada mais pessoas a saírem à rua para
assistir, focaram as obras do Casino, sem perder de vista
algumas críticas às recentes medidas governamentais, tendo
na "mira" Manuela Ferreira Leite e Paulo Portas.
Na zona do
Viso, falou-se da centenária Praça de Touros e
aproveitando a paisagem, criticaram-se as medidas mais
recentes da autarquia. "Mudando de assunto / desço a
Rua da Liberdade / e vejo os parquímetros / a pedir por
caridade".
A (pobre)
Feira de S. João, o (triste) Jardim Municipal e as cheias
que também martirizam sistematicamente aquela zona não
foram esquecidas, com Alfredo Lopes a considerar que
"no Inverno esta zona / é linda de pasmar / fica que
nem um rio / e até dá para nadar".
E o cortejo
prosseguiu até à Praça Nova onde o Centro de Artes e
Espectáculos foi o "mote" para mais uma
"alfinetada". Aludindo aos grandes espectáculos
que ali se têm realizado, dizem que "mas eu ainda não
vi / para tristeza e infelicidade / ali representar /
nenhuma colectividade".
Dali à
zona do Vale junto à sua sede, foi um "pulinho",
com lamentos sobre a fonte luminosa, as "más
línguas" e as tradições que se vão vivendo naquela
parte antiga da cidade.
A Dez de
Agosto cumpriu mais uma vez a tradição, a Figueirense
aliou-se à "festa", numa iniciativa que contou
com o apoio de diversos organismos e com a forte adesão da
população.
Bela
Coutinho - in Diário de Coimbra - 2003/04/21
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O
"Enterro do Bacalhau"
O enterro
do bacalhau é já uma tradição centenária - uma forma de
protesto ao período de jejum quaresmal vivido pela
população pobre, na sua maioria pescadores,
impossibilitados de comer carne durante a Quaresma. O
alimento mais consumido era o "fiel amigo".
O desfile
é constituído por um juiz, sentado num dóri cedido pela
Sociedade de Pesca Oceano, um grupo de cozinheiros equipados
a rigor, com os tachos e talheres e a Filarmónica a tocar a
marcha fúnebre do bacalhau.
Este ano o
juiz foi, uma vez mais, Alfredo Lopes que, nas paragens foi
tecendo críticas sibilinas aos locais por onde o cortejo
transitava: inundações na Rua da República, obras nas
pontes, sede da Junta de Freguesia de S. Julião.
Junto ao
Mercado o tema foi os nitrofuranos nos frangos e porcos. O
molhe norte, a política de Manuela Leite e de Paulo Portas
foram outros dos assuntos alvos de críticas.
Apesar do
tempo agreste, uma pequena multidão acompanhou o cortejo
organizado pela Dez de Agosto e em que participou a
Figueirense - um acontecimento histórico a marcar a vida
das duas colectividades.
Carlos
Bettencourt - in A Voz da Figueira - 2003/04/24
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