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A
história e a lenda unidas na fé da população
Antigamente,
a Festa de Santo Amaro celebrava-se religiosamente a 15 de
Janeiro, mas nos dias de hoje transita para o domingo
seguinte. Amanhã (2002/01/20), cumpre-se mais uma vez a
tradição, numa pequena capela em plena
Serra da Boa Viagem, onde a história se confunde com a lenda, mas a fé
continua inabalável.
Reza a
lenda que nos longínquos anos de 1700, uns
"mancebos" de Buarcos, tentaram roubar Santo
Amaro, mas foram interceptados por populares que o voltaram
a colocar no seu lugar. Todavia, o "mancebo" que
transportava o santo ficou «aleijado das duas mãos», e um
filho que veio a ter nasceu «aleijado de ambos os pés».
Mesmo que esta pequena "estória" não corresponda
à realidade, a verdade é que a fé em Santo Amaro continua
inabalável, e amanhã (2002/01/20) centenas de peregrinos
vão ao local pagar as suas promessas e cumprir a
tradição.
As
primeiras referências à Capela de Santo Amaro remontam ao
século XV, quando Quiaios ainda estava sob a jurisdição
de Montemor-o-Velho e aquela festa era a única procissão
que se fazia, segundo escritos do ano de 1721. Todavia, as
poucas referências históricas encontradas, dizem que a
actual construção, é uma «obra modesta de reforma do
séc. XIX», e que o púlpito, (actualmente no
Museu
Municipal), cilíndrico, sobre coluna, mostra uma
inscrição em que se faz referência a quem o terá
construído, em 1636 e que pertenceu à demolida capela de
S. Sebastião de Quiaios. A escultura de pedra de Santo
Amaro «é obra secundária do séc. XVI».
Festa onde
era proibido lançar foguetes e beber vinho
Aliás, o
padre Manuel Silva (ex-pároco da freguesia e um
"estudioso" da história local), contou ao nosso
Jornal que ainda não vai há muitos anos, que «as meninas
solteiras que estavam na iminência de ficar para tias, iam
à capela dar uma "turra" no púlpito e fazer uma
oração ao santo, acreditando que assim, arranjavam
namoro». Algumas até conseguiam, e muitas jovens,
«algumas de muito boas famílias», casavam naquele local,
pois a capela possui o cognome de Capela da Felicidade.
Casamentos históricos, principalmente logo a seguir ao 25
de Abril, recorda o prior, pois o local «é pacato, longe
de olhares alheios» e na altura vivia-se ainda sob o
"espectro" do fascismo.
Mas outras
histórias estão intimamente ligadas àquele espaço de
culto, que, tudo indica, está erigido em cima de um
dólmen. Situado perto das minas, onde antigamente centenas
de homens laboravam, servia de «abrigo e para preces»,
quando havia grandes trovoadas, o mesmo fazendo os
pescadores, que tinham também grande fé em Santo Amaro.
Além
disso, e porque está construída em plena Serra da Boa
Viagem, inserida no perímetro florestal, a festa em honra
do santo tinha características próprias, uma vez que era
proibido o lançamento de foguetes e beber vinho, «devido
aos incêndios», explica Manuel Silva, pois os guardas
florestais «colocavam-se em todos os locais de acesso à
capela», para vigiar quem saía da romaria.
Restaurada
há 35 anos, por uma comissão liderada por Manuel Silva e o
falecido João de Lemos, entre outros, a capela de Santo
Amaro faz parte da Comissão da Igreja Paroquial de Quiaios
e prepara-se para amanhã (2002/01/20) receber de novo os
peregrinos, que vão pagar as suas promessas, «todas em
cera», com várias voltas à capela e a entrega de membros
de cera. A missa realiza-se às 14h30, com o coro paroquial
de Quiaios. Além disso, os romeiros participam igualmente
na "feira das passas", uma feira de frutos secos,
os mais abundantes nesta época.
Bela
Coutinho - in Diário de Coimbra - 2002/01/19
Nota: as
imagens desta página ilustram a Festa de Santo Amaro na tarde do dia
20 de Janeiro de 2002.
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