Enterro do bacalhau voltou às ruas da cidade

O "Enterro do bacalhau", uma tradição secular, intimamente ligada ao fim da Quaresma e que deverá ter tido as suas origens, no seio da população de mais fracos recursos voltou a realizar-se na noite do passado sábado. Esta foi também a oportunidade para se lançarem algumas críticas quanto a alguns pontos nevrálgicos da cidade.

Segundo contam os mais idosos, antigamente a Figueira da Foz era composta por uma forte comunidade piscatória e como tal, com fracos recursos, eram "obrigados" durante a época da Quaresma, a comer diariamente bacalhau, já que não tinham dinheiro para pagar a bula ao padre.

Por isso, findo o jejum, era com alegria que enterravam o bacalhau, o que queria dizer que já podiam comer o que quisessem. Mas esta cerimónia, era (e é) aproveitada para se dizerem algumas verdades, sem correr o risco de serem penalizados.

Por isso, o "orador", que, em cima da carrinha vai enaltecendo as virtudes do "fiel amigo", desfia também algumas críticas (ou louvores), conforme os locais onde vai parando. Na Rua da República, por exemplo, ficou a sugestão ao "timoneiro" da nova Câmara Municipal que "dê nesta rua um jeito certeiro / talvez, quem sabe?, fazer dela / para o comércio donzela/ transformando-a em picadeiro".

Depois, seguiram-se algumas achegas ao antigo e abandonado bacalhoeiro "José Cação", à junta de freguesia de S. Julião por ainda não ter sede, aos transportes da Farreca, à falta de iluminação no Estádio Municipal José Bento Pessoa, pedidos de apoio à Sociedade Figueira Praia e na zona do Tribunal, uma alusão ao processo que aí decorre contra médicos a exercerem neste concelho.

"Mas olhemos o tribunal / que nos vê a sorri r/ Porém, tanto médico a entrar e a sair / Faz-me uma confusão tal / que não fossem as togas / jurava ser um hospital!".

Com textos de Ricardo Santos, vice-presidente da colectividade e concretizada pela Sociedade Filarmónica Dez de Agosto, esta "marcha fúnebre" do enterro do bacalhau, continua a percorrer as mesmas artérias da cidade de antigamente, fazendo-se algumas paragens, junto das zonas mais emblemáticas da cidade, como o Casino, o Largo do Carvão, o Mercado entre outros.

Do cortejo fazem parte, um bacalhau gigante, tachos, dezenas de cozinheiros, figurantes e músicos da filarmónica, além do pregador, que com voz eloquente e deitando recurso a um microfone, faz ecoar a sua voz pelas ruas da cidade, este ano não tão preenchidas como seria de desejar, porque à hora do cortejo se realizavam dois jogos de futebol importantes.

Mesmo assim a centenária colectividade continua a fazer jus à alcunha de "Teimosa" e a levar anualmente para a rua este cortejo, cuja ladainha "bacalhau, bacalhau", os figueirenses já conhecem de cor e salteado, mas gostam sempre de ver.

Bela Coutinho - in Diário de Coimbra - 2002/04/01


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