Homenagem popular e devota a Nossa Senhora da
Boa Viagem
Considerada
como a festa religiosa com mais tradição no Concelho,
decorre de 28 de Janeiro a 5 de Fevereiro a homenagem
popular e devota a Nossa Senhora da Boa Viagem.
Orçada em
seis mil contos, esta festa realiza-se sobretudo com o apoio
dos populares da povoação da Serra da Boa Viagem, ainda
que a comissão responsável tenha pedido um apoio à
empresa municipal Figueira Grande Turismo (FGT) e às Juntas
de Freguesia de Buarcos e Quiaios.
Lídio
Lopes, administrador-delegado da FGT, frisou que o apoio
será traduzido dentro do âmbito das atribuições e
competências da empresa.
Diamantino
Lebre, da comissão, explicou que durante esta festa,
"a única que se realiza no Inverno", é feito um
peditório pela povoação da Serra, uma iniciativa que
também se desenvolve junto de emigrantes, essencialmente
dos da Europa Central, que são quem mais contribui.
A comissão
é composta por 10 elementos, residentes na Serra da Boa
Viagem, e mais quatro que se encontram emigrados na Europa
Central. Daí que Diamantino Lebre diga que esta é uma
comissão "internacional".
Com o
objectivo de angariar dinheiro, a comissão de festas
promove diversas iniciativas, como sejam a venda de
porta-chaves e afins e ainda um leilão de quadros com
imagens exteriores e interiores da igreja, pintados por
Serafim Fontes.
Nas
entradas para a Serra serão montados arcos a anunciar a
festa, com luzes, e a imagem da santa feita em acrílico.
Ao longo de
aproximadamente dois quilómetros poder-se-ão ver arcos
iluminados feitos pelo povo que foram desenhados por Mário
Penicheiro. Refira-se que cerca de 30 a 50 mulheres, durante
dois meses, trabalham na feitura das flores. Segundo disse
ao DIÁRIO AS BEIRAS Diamantino Lebre, "desde Março
que se anda a trabalhar para esta festa que mobiliza a
população da Serra", recordando ser "uma festa
com tradição com mais de 100 anos".
Remar
contra a maré
Diamantino
Lebre sublinhou que "a Figueira não é só Verão,
passagem-de-ano ou Carnaval". Na sua opinião, há
outros eventos, porque "a Figueira tem de viver todo o
ano", sendo importante "remar contra a maré,
principalmente contra o tempo e a falta de apoio". No
entanto, "existe uma grande interajuda" e
"apesar do mau tempo, as pessoas aderem à festa".
Aquele
membro da comissão deixa o apelo para que a Câmara
Municipal se vire mais para a Serra", até porque
"não há ninguém que venha à Figueira, seja no
Verão ou no Inverno, que não vá à Serra da Boa
Viagem".
Para esta
festa que "está hoje ao nível" da de Nossa
Senhora da Encarnação, que se realiza em Setembro, em
Buarcos, foram montados dois palcos no largo da igreja.
Imagem é
do povo da serra
"Claro
que não podemos dizer que a nossa imagem tem 133 anos. É
muito mais antiga", disse Diamantino Lebre. Aliás, a
imagem esteve numa pequena igreja, que existia na encosta
sul da serra (na zona florestal) e depois foi transferida
para a capelinha do cemitério, de onde saiu,
definitivamente, para a igreja. "É pertença do povo
da Serra e não da diocese de Coimbra", concluiu.
O nome de
Senhora da Boa Viagem advém não só do nome da povoação,
mas também do "baptismo" dos pescadores e
capitães dos navios de bacalhau. É que estes, antes da
partirem para a Terra Nova e Groenlândia, vinham levar o
andor e pedir ajuda à Senhora, a fim de os proteger na
faina do alto mar. Também as suas famílias vinham em
romagem, a pé, de aventais e lenços típicos, fazer preces
e acenar com lenços brancos até perderem de vista os
barcos que levavam os seus entes queridos para a faina da
pesca.
No início
– explicou Diamantino Lebre – a festa era celebrada no
dia 2 de Fevereiro, dia do calendário litúrgico destinado
à Senhora da Luz ou Senhora das Candeias. "É por isso
que ainda hoje algumas pessoas confundem a Senhora da Boa
Viagem com a Senhora das Candeias", esclareceu.
Mesmo para
os não crentes, esta festa faz parte integrante da
história do povo da Serra, pois este apanhava os pastos
para o gado com antecedência para que o sábado, domingo e
segunda-feira fossem apenas dedicados à Senhora da Boa
Viagem, e consequentemente aos seus festejos.
Mesmo
aqueles com poucos recursos "gostavam de estrear fatos
novos e apurarem-se mais na arte gastronómica" para
melhor receberem todos os que os visitavam, rematou o membro
da comissão organizadora.
Historial
A igreja da
Senhora da Boa Viagem, situada no centro da povoação da
Serra, foi construída em 1867.
Aquando da
sua primeira fase, interiormente tinha uma capela-mor com um
altar em madeira (pintada e dourada) que, não sendo de
grande valor histórico, era, no entanto, de uma beleza
extraordinária e digna de ser conservada, devido à sua
concepção artística de linhas direitas e colunas
arredondadas.
Talvez
devido ao pouco tratamento que teve, foi-se deteriorando ao
longo dos anos, ficando imprópria para as celebrações
litúrgicas, então em latim e de costas para o povo.
Este altar
foi mais tarde substituído por pedra, não só a mesa da
celebração, mas toda a estrutura envolvente.
Desse
conjunto da primeira fase fazia ainda parte um salão onde
os devotos assistiam às celebrações com um coro destinado
aos cânticos, principalmente em dias festivos, como a festa
da Senhora da Boa Viagem, o Natal, Páscoa e outros eventos.
Na igreja
havia também uma sacristia destinada a guardar os
sacramentos litúrgicos e ainda o vestiário dos sacerdotes.
Por volta de 1974 e anos seguintes foram feitos vários
restauros na Igreja que, mantendo o corpo principal e sua
traça, viu aumentada a sua área de aproveitamento. Assim,
foi construída uma sala mortuária, um salão para
reuniões de catequese e outras, sanitários e sala de
arrumos.
Há cerca
de dois anos e devido à boa vontade de algumas comissões
que foram deixando para esse fim os lucros que sobravam dos
festejos em honra de Senhora da Boa Viagem, concretizou-se o
sonho de construir um altar condizente com a imagem da
Senhora da Boa Viagem, em roca, como era próprio das
imagens do século XVIII.
Todo o
altar e adornos são folheados a ouro, adquirido num dos
melhores antiquários de Lisboa, tudo orientado pelo
conhecimento do padre Carlos Noronha, bem como de outros
colaboradores conhecedores natos da arte sacra.
Este
conjunto do altar e adornos orçou em cerca de 6.500 contos.
Jorge Miranda (com Anabela Vaz) - in As
Beiras
Nota: as
imagens desta página ilustram a procissão na tarde do dia
4 de Fevereiro de 2001.
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