A "arte" revivida na Praia de Buarcos - Iniciativa do Grupo Instrução e Sport

Eram tempos ainda mais difíceis, que obrigavam a grandes sacrifícios. A pesca da "arte" era, por vezes, uma das poucas alternativas para se conseguir "matar a fome" em terra. Uma prática que foi novamente revivida numa iniciativa promovida pelo Grupo Instrução e Sport.

O objectivo é manter viva a tradição e, também, mostrar aos mais novos as dificuldades da vida em tempos não muito recuados.

Uma mão cheia de boa vontade, uma dezena de saudosos homens, uma pequena embarcação e a teimosia de não deixar cair no esquecimento uma actividade que, antigamente, fazia parte do dia-a-dia da população de Buarcos, levaram o GIS, Grupo Instrução e Sport a reconstituir novamente este ano a designada "arte", uma forma de pesca artesanal, em que o barco sai da Praia de Buarcos carregado de redes, que eram lançadas em semi circulo e depois puxadas por dezenas de braços de homens e mulheres, que, ansiosamente, buscavam no mar o sustento em terra.

Actualmente só mesmo para turista ver e para que os mais jovens saibam com era, mas esta reconstituição teve muitas contrariedades.

Primeiro porque o "homem põe e o mar dispõe" e a data marcada, provou-se, não foi o melhor dia.

Depois, porque quando se puxava pela segunda vez as redes, as cordas rebentaram e teve de se voltar ao mar, para agarrar a bóia e não se perder tudo. 

Finalmente, porque o fruto da pesca "não deu para nada", a não ser "mostrar como se fazia " referiu ao nosso Jornal António Inácio, o presidente da Colectividade.

Mesmo assim "valeu a pena", garantiu um emigrante que estava no local, "pelo recordar dos velhos tempos".

E tanto que valeu o entusiasmo de quem participava e de quem aos poucos se ia aproximando para ver o que se passava, conseguia contagiar, mesmo quem só ali tinha ido para apanhar banhos de sol.

"Zita" Mesquita é uma testemunha da época: "A fome em terra obrigava a grandes sacrifícios no mar"

Hoje tem mais de 60 anos, (a uma senhora não se pergunta a idade), mas nos olhos ainda se sente a nostalgia de quem, centenas, milhares de vezes, repetia o mesmo gesto, o de puxar as redes.

"Zita" (é assim que quer que a tratem, de seu nome Maria José Mesquita Barros, mas toda a gente a conhece por "Zita" de mariazita...), recorda-se que, quando tinha 12 anos, eram "dias e noites, horas e horas a puxar", pois as redes tinham centenas de metros.

Uma vida "dura" em que "se ganhava muito pouco", mas mesmo assim, "como havia muita fome", toda a gente ia puxar. 

E os tempos eram tão maus, que , vestidas com as roupas mais velhas e com grandes e fortes aventais, com bolsos de uma ponta a outra, esperavam o momento "em que a dona olhava para o lado", para encher os bolsos de peixe.

Parco contributo, para auxiliar ao magro ordenado. Zita Mesquita foi a única mulher que no Domingo apareceu, com o avental de antigamente e com o cinto, uma verdadeira relíquia em pano cru, com mais de cinquenta anos e que se falasse, contava que foi traçado no peito milhares de vezes, servindo para puxar as redes de vários elementos da mesma família.

Mas não fala, só a sua proprietária, que, apesar da vida de trabalho, recorda com saudade esses tempos, as amigas que já morreram e a "arte", agora proibida, sem perceber porquê, pois "se era tão bonito!", exclama com a saudade de quem recorda a meninice.

Bela Coutinho e José Santos - in Diário de Coimbra - 2001/07/22

Nota: as imagens desta página foram obtidas em 2001/08/12, posteriormente à data do artigo, em outra demonstração de "arte".

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Agradecimento:

O GIS depois de várias tentativas e contactos com as diversas autoridades da Figueira da Foz, teimosamente e com abnegação dirigiu-se em 1999 ao Ministério do Mar, à Direcção Geral de Pescas e Agricultura, e desde aí que tem realizado todos os anos mostras de "ARTE" nos meses de Junho, Julho e Agosto.

Em 2000 foi realizada uma mostra de "arte" com concurso de trajes antigos para mulheres e homens da "arte", prémios oferecidos pela Empresa Figueira Grande Turismo.

Um agradecimento muito especial a todos os Directores e pessoal administrativo que têm passado por o Departamento do DGPA do Ministério do Mar.

Agradecemos a todos os que tem colaborado com o GIS nesta iniciativa, especialmente ao Zé Bóia que emprestou a sua rede da arte.

Hoje o GIS já possui uma rede própria que adquiriu, e também foi oferecida uma outra pelo pescador Bento, "O Cachaça", ao Presidente da Colectividade, assim como agradecemos ao nosso mestre de redes Quim Mano e aos pescadores que tem emprestados os botes: Sr. Bóia, Sr. Eusébio e Sr. Serafim e todos os que de uma forma ou de outra nos têm ajudado.

António Inácio - Presidente do GIS (na altura)


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